QUEM É ALINE ROMARIZ?



MISTURADA MULHER, FASCINANTES PAPÉIS

Passei parte de minha vida ouvindo mulheres dizendo que não queriam ter nascido mulher; lamentando-se por não integrarem o universo dos homens, que tudo podiam, na província e no tempo em que nascemos. Mas também passei parte de minha vida sabendo, intestinamente, que ser mulher foi um presente raro que recebi de meus pais: um velho liberal, de voz pausada e melancólica, idealista, que um dia Graciliano Ramos, na prisão, nomeou de “ nacionalista ingênuo”. Ele se encantava com as filhas, todas muito parecidas com ele, um ser meio feminino, para os padrões machistas da época, que odiava tiranias dentro e fora de casa. Investiu em nossa educação, abominando o hábito feminino, culturalmente induzido, de deixar de estudar para casar. Marido, dizia o velho João Romariz, não é emprego.

Encantado com as filhas, meu pai atuou como atuam as mulheres: ensinando-nos a ser tolerantes, solidárias, delicadas. Um poeta, de poucas poesias feitas e muitas vivenciadas. De minha mãe, lembro a força e a ordem, o tom alto que nos incutia medo, aspectos hoje considerados masculinos, pois ela era uma mãe forte e densa que desfazia, com gritos e beijos, o estereótipo da mulher submissa. Sorríamos quando nos dizia que não mandava em nosso pai, que tudo combinava com ele, pois o nosso cotidiano era governado por ela, presidente sem vice, salvo em questões intelectuais.

Tantos anos depois, guardo na memória o presente que ambos me deram: o de ser uma mulher cuja feminilidade elástica tanto pode ser herança de doçura e sensibilidade, quanto exercício de força e interferência no mundo. De uma forma estranha, quando brigo, lembro a velha guerreira, confinada no espaço da casa, que minha mãe sempre foi; quando leio ou faço poemas, exercitando uma sensibilidade ancestral, masculina e feminina, lembro o velho pai, o meu melhor lado feminino. E, híbrida, posso chorar, gritar, sorrir ou calar meus medos, e tanto mais feminina - porque complexa e humana - Serei!

Aline Romariz por Vera Romariz (2008 )


HOMENAGM A SABINO ROMARIZ

ALINE ROMARIZ, POETA ALAGOENSE, PRESIDENTE E FUNDADORA DA ACADEMIA NACIONAL DE LETRAS PORTAL DO POETA BRASILEIRO, ANLPPB, DEIXA UM RECADO:


"Para me conhecer melhor, leiam a história do avô que não conheci... Mas que carrego em mim por onde vou."


SABINO ROMARIZ É CONSIDERADO UM POETA MAIOR PENEDENSE (1873-1913). ALÉM DISSO FOI ELEITO PELA ACADEMIA DE LETRAS DE SÃO PAULO O MAIOR POETA REPENTISTA DO BRASIL: 

Eleito pela academia de letras de SP o maior poeta repentista do Brasil. Patrono da cadeira nº 15 da Academia Alagoana de Letras (AAL), SABINO ROMARIZ é considerado o “luminar” da Literatura Penedense,

No seu prontuário bibliográfico, consta cerca de 13 livros e outras publicações. Foi por excelência, um provinciano, enraizado no burgo nativo, inclusive, estando em sua terra natal, lançou novos trabalhos literários e colaborou em todos os jornais da época, especialmente no “O Lutador”, do qual foi um dos redatores. Obras do talentoso, mestre e gênio da literata alagoana, SABINO ROMARIZ:

– Simoun (livro/poesia – publicação heroica)
– Bibliário (livro/poesia)
– A Madalena (livro/poesia – trabalho bíblico, com requinte e amplo conhecimento das Sagradas Escrituras – Rio de Janeiro – 1899)
– Solidôneos” (belíssima Coletânea de 30 sonetos – Estado de Minas Gerais, entre 1901/1902)
– Lama Sabacthani (livro/poesia – expressa com veemência a sua condição antimonarquista, sua aversão à Igreja Católica – Tipografia Luso Brasileira – Penedo-AL – 1904)
– Quixabá, pela Coragem (livro/drama)
– Baiuca (livro/drama – recheado de peças burlescas)
– Última Lágrima (livro – romântico testamento)
– Irmã (livro – romance naturalista)
– Branco (poema – romance naturalista)
– Os Simples (poesia – simbolismo Junqueireano)
– Minha Estrela (poema)
– Em Almas (poema)
– O Homem (poema)
– A Guerra Junqueiro (tem objeção a tradição histórica e Judaico-Cristã, centrando-se na imagem do homem, como grandioso ator da dissimulação Humana)
– Redenção De Judas (revela a atuação desse apóstolo como definida pelo programa Cristão de Penitência – um custo que o endereça para a trágica cidade)
– As Duas Rosas (poesia – Penedo/AL – 1907)
– Ignis (poesia – Penedo/AL – 1908)
– De Larva em Ave (poesia – Jornal “A Flor”, Penedo/AL, 20/10/1909)
– Mea Culpa (bibliário em versos – Penedo – 1910)
– Céu (Revista O MALHO, Rio de Janeiro, 27/09/1910) e
– Toque D’Alva (livro/poesia: reflexão mística sobre a luz – Tipografia Anuário Comercial – Lisboa – 1911)
– O Lírio (Antologia do soneto Alagoano – Revista da AAL, nº 12, p. 128)
– As Três Gemas (republicado após sua morte – Jornal do Brasil – Rio de Janeiro/1998)

A poesia de SABINO ROMARIZ ecoa alvitres do tempo em que ele viveu, com o Romantismo colorindo seus poemas, mas, as primeiras obras possuíam, visivelmente, a marca dominante do Parnasianismo e, outras obras fixam-se especialmente no ritmo, característica do Simbolismo. Na caudal lírica do poeta Penedense, sobressai um límpido veio simbolista. Das suas obras, abatida pelo furacão do tempo, sobreviveu apenas o soneto “O Lírio”, de conteúdo deliberadamente simbolista, uma exígua e indestrutível obra-prima.

No século XIX, substitui a influência da mitologia Grego-Latina pela Cristã – um antigo sonho do escritor Francês CHATEAUBRIAND – era um procedimento caro, rebelde e anti-clássico, no entanto, SABINO lhe proporcionou a realização de tal sonho, com suas poesias.

No final do século XIX e início do XX, o poeta Penedense, produz incontáveis poesias de aspiração bíblica. Em alguns de seus frutos, rediscute cânones religiosos como a traição de Judas e a culpabilidade da Madalena, vendo-as como peça da história Cristã, que não dependeria das trágicas personagens específicas. Madalena, Lázaros, Judas e Cristo, ocupam os alongados poemas de SABINO, mas com um vanguardista olhar, menos ortodoxo e mais humanado. Com visão mais Franciscana que de Roma, assim, ele absolve Madalena, desendivida Judas, humaniza a todos, semeando uma visão Cristã, cujo conteúdo é mais do novo testamento que o antigo.


SABINO ROMARIZ foi um dos poetas que, tendo estado e falecido nas províncias natais, distante das fanfarras e do rumor da vida literária metropolitana, tiveram, inevitavelmente, seus nomes e versos exclusos pelo tempo, e no momento, fazem parte de um tesouro poético escondido ou mesmo camuflado para sempre. Ao lado da esposa ASPÁSIA e dos filhos JOSÉ e JOÃO, viveu em precárias condições financeiras e, lamentavelmente, faleceu em 09 de maio de 1913, no Sítio Cajé (próximo da Bica da Coruja), em Penedo/AL, aos 40 anos de idade, cuja causa mortis é controvertida, em tuberculose pulmonar ou infecção no fígado (por excesso de álcool), deixando expressiva produção literária. No triste poema escrito antes de morrer, o poeta lembrou de seus “dois meiros sem ninho”, frase pronunciada por ele para, carinhosamente, acusar a existência dos dois pequenos filhos.

Quando eu morrer, verás, Delma adorada,
Qual ave que do mundo s intimida'
A derradeira lágrima perdida
Rolar-me pela face amargurada...
[...]
Assim, quando algum dia, finalmente,
Muito trêmula e pouco refulgente
A luz do meu olhar morrendo for
Alguém há de guardar e és tu quem há-de
A peregrina estrela da saudade
A derradeira lágrima de amor.
(op.cit.,131)
Sabino Romariz

SABINO ROMARIZ é, sem dúvida, um dos mais inspirados e fecundos poetas que foi gerado pelo burgo alagoano. Um trovador que não só merece apologia, mas o reviver, no intuito de deixar-lhe a memória cada vez mais nítida e viva. Foi graças à pena usada pelo poeta que Penedo, cidade considerada há muito como “o berço da cultura alagoana”, viu, no acender de lamparinas, em meados do século XX, a intelectualidade exaltar nossa poesia alagoana. Portanto, falar do vate Penedense, é o resgatar de uma biografia, bem como da reconstrução de um patrimônio histórico e literário de relevância considerável. Em suma, trata-se de um vaticinador que, em seu tempo destacou-se de modos a cultivar méritos e a apologia de nomes renomados da literatura brasileira como OLAVO BILAC, COELHO NETO, JOSÉ DO PATROCÍNIO, GUIMARÃES PASSOS, dentre outros letrados e artistas consagrados.

MINHA ESTRELA
Nasci pobrezinho, qual ave do bosque;
Eu tenho uma estrela que Deus me guiou,
- Um cetro supremo e sublime da Artista -
E nem por impérios tal estrela eu dou.
Eu trago na fronte tão loiro diadema,
Mais loiro e mais lindo que a luz das manhãs!
O sol me desperta em meu leito de espinhos
As flores dos campos são minhas irmãs.
Debalde a riqueza me cobre de insultos
A inveja tropeça na linha em que vou,
Eu tenho uma estrela radiante de Artista,
É um timbre infinito - foi Deus que timbrou.
Sou órfão de amores, sou pobre de afetos,
- Não tenho carinhos jamais de ninguém -
Eu tenho uma estrela suprema de Artista
E tenho uma glória que muitos não têm.
Sabino Romariz*

FONTES DE CONSULTA

https://sipealpenedo.wordpress.com/20-sabino-romariz/?fbclid=IwAR2Nm5MFH2nPjyvYQSxyy1JorgsBYm3GOA1uM-m51bBXwxnyGG7mPvUsX3A

https://oversodapedra.blogspot.com/2007/06/minha-estrela-nasci-pobrezinho-qual-ave.html?m=1&fbclid=IwAR0xPDT2qEx7gmhbAcya3MOGKFmH0MTFP1JVMRhmg6AYBT3vB-LZs2UmEH0

https://alineeamigos.blogspot.com/2007/03/meu-av-sabino-romariz.html?m=1&fbclid=IwAR0DNAzqB3tEglpSNyAWgv67ywCPR5wsO25ttpLQfxNehb-eu3wAnJ55ivU

EDIÇÃO DE LIZ RABELLO

"AORTA" PRIMEIRO FILHOTE DE ALINE ROMARIZ


LANÇAMENTO NA BIENAL DE MACEIÓ 2023


POÉTICA DE ALINE ROMARIZ



Meu mar é casa
A sala que viu
meus primeiros passos
Onde contruí castelos
É um arrastão de histórias
que posso assinar
É o primeiro amor
ainda guardado em conchas pérolas
que eu recolhia pelas manhãs
Meu mar é moradia
Meu lar
É um barco navegando
a cumplicidade do meu afeto
A água que me limpa
é meu jeito de amar
Aline Romariz



Reencontro-me
em seus sinais de fogo
como é sábia a vida
tão bom
- você - de novo!!
Aline Romariz











Eu precisei lutar e aprender. Não vi só pedras de onde vim, vi o asfalto rachado dando flores amarelas, conheci roqueiros rurais e doidos de pedra. Entendi por que não gostar de Caetano, fui acolhida numa casa rosa tão bonita e cheia de histórias e estórias para contar. Dormi na casa de Hilda, tomei a sopa do homem que amava os Ipês amarelos e escutei cantores clássicos em noites maravilhosas. Conheci Eduardo num dia de quarta e Vlado Lima fazendo Sopa de Letrinhas... Fui bater na periferia e fiquei maravilhada com a "poetada"... Eu viajei mundos sem a arrogância dos que não têm coragens e se repetem calculadamente.
Difícil fazer amizade num espaço restrito e não poder dizer o que eu sinto quando ainda vivo misturando palavras, sílabas para deixar guardadas em gavetas abarrotadas. Isso não é briga é, simplesmente, o que caminhei, longe da minha terra que me faz hoje excluída (não só eu). É o meu olhar constante, "que anda prestando atenção em tudo" . Quase tudo que podia ser mais belo, sem egos e mais elos.

Aline Romariz




ÚLTIMA MENSAGEM QUE ALINE ME MANDOU
Liz Rabello
HOMENAGENS DOS POETAS ATRAVÉS DA POESIA COLETIVA

Nós, do grupo de Poesia Coletiva, oferecermos estes versos, criados a várias mãos, num só coração, para nossa mãe, mestre, que nos une, em prol de uma existência coletiva... Obrigada Aline Romariz.




ACAMPADENTRO


Acolhida recheada de versos
Carinho estampado nos sorrisos
Um pequeno paraíso
Temperado de paz e harmonia
E no encanto desta magia
Nasce o desejo de congelar o tempo
Tempo pautado no calor humano
Do abraço sincero
E usufruir de tua companhia
Para todo o sempre!
E é neste cenário
Que a poesia diz:
Obrigado por você existir
Amiga Aline Romariz!

Te amamos!

Silvana Gonçalves Luiz
Liz Rabello
Andrade Jorge
Helena Agostinho
Paulo Cesar Coelho
Leonice Teixeira

MOMENTOS PRECIOSOS QUE VIVEMOS JUNTAS

CAMPINAS 2014


Aline queria que eu a levasse a Paraty em 2026 e eu a levarei dentro do meu coração, pois pessoas especiais não partem, ficam escondidas dentro de nós.

As coisas se encaixam em sintonia com o universo... Tudo é bom para nosso crescimento espiritual. E temos que nos preparar para a partida que a qualquer momento vai acontecer. Fé em Deus. Fé na caminhada.

Na foto meu lançamento na Bienal de Maceió...


BIENAL DE MACEIO
Querida Aline Romariz... Gratidão imensa por tudo, desde os detalhes mínimos aos mais grandiosos. Obrigada por fazer de utopias realidades imortais. Por nos presentear com tanto amor e aconchego nestas terras alagoanas.


Tenho muitas lembranças lindas... Ficava dormindo na casa dela em Campinas sempre que tinha eventos. Quando mudou para Maceió, fiquei por sete dias em seu apartamento.


LANÇAMENTO DO MEU SEGUNDO LIVRO DE CRÔNICAS EM CAMPINAS 2014


É uma alegria dupla, pois minha posse na ANLPPB foi em Londrina e meus primeiros passos nas trovas foi numa experiência de estudos promovidos pelo PPB, através das mãos amorosas da querida Lu Narbot. Gratidão aos amigos de Campinas: Vânia Figueiredo e Adilson Roberto Gonçalves.


Dediquei esta premiação às amigas queridas Aline Romariz e Vânia Figueiredo. O certificado chegou só hoje, 20/01/2026... Não deu tempo de comemorar com elas. Partiram para as estrelas

Ela não gostava de tirar fotos, mas fazia o sacrifício por mim. Não há ninguém no mundo literário que me valorizasse mais do que ela. Fazia-me sentir que sou escritora e me ofertava homenagens sempre... Dizia: *Temos que valorizar o poeta vivo*... Eu era estrela aos seus olhos. Era luz no mundo literário... Ontem, 06/01/2026, Dia de Reis, minha rainha partiu e virou estrela no céu e eu fiquei às escuras... Até breve minha querida... Te amo além das estrelas.
Liz Rabello




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